
Pastor Clodoaldo Malafaia.
Tenho uma longa relação de amizade com os animais. No pequeno minifúndio no interior de Minas Gerais onde moro, convivo com uma infinidade das mais belas espécies que existem. Possuo um belo destacamento de cães, dois gatos, um cavalo, meia-dúzia de cabeças de gado, uma vara de leitoas, várias galinhas, três tatus-bola amazônicos, um mico-leão dourado, minha criação de morcegos (para abate e ordenha), um casal de ararinhas-azuis, etc.
Entre minha numerosa criação sempre houve a paz e a tranquilidade de Deus, pois meus animais também são evangélicos e muito respeitosos quanto a religião.
Eu também sempre vinzimei e orei com régia ordem, e fiz com que os animais fizessem o mesmo. Se abato uma galinha, mando uma coxa para o pastor; se abato uma onça pintada ou tucano, mando um casaquinho para os meninos da igreja. Assim a paz reinava em minha propriedade.
De repente um dos cães de minha matilha, um cruzamento de buldogue com pitibul o qual apelidei de Trovão, passou a comportar-se como o capeta. Atacava os cavalos, comia os frangos, derrubava porteiras e até a mim atacava, de modo que tive que separá-lo e mantê-lo cativo em um cubículo.
Trovão não mais se alimentava, nem bebia água, parecia sobreviver unicamente da incorporação satânica que o dominava. Neste momento descobri porque é do populacho chamar o diabo de "cão", tamanha a fúria e descontrole que assomavam seu ser. Procurei muitos néscios para saber o que fazer com meu pobre animal, mas sempre recebia a mesma resposta: a melhor escolha era sacrificar o cão e poupá-lo do tormento do demônio. Não confiava nestes tolos, queria a opinião de um entendido. Para propósito disto, liguei para meu antigo amigo pastor Gérson de Barros, que muito atencioso veio à minha residência a bordo de seu jumento Flamengo.
Em posse apenas de uma Bíblia, Pastor Gérson promoveu um forte desencapetamento no animal, que para meu espanto resultou em nada. O cachorro continuou a salivar compulsivamente, tentando atacar-nos através das grades de sua jaula. Não pude esconder minha decepção, e percebendo isto, Pastor Gérson me elucidou de forma muito convincente:
- Não se iluda, homem, eu penetrei na mente deste animal e compreendi que aí ele não mais habita, está morto. Quem domina este corpo agora é o próprio Satanás, que não mais se alimenta, pois vive apenas da energia espiritual.
Despedi-me de pastor Gérson mais amargurado, pois ainda tinha esperanças de curar Trovão e recuperar a sua forma canina. Desgostoso, orei muito aquela noite. Como por milagre neste momento liga-me o meu primo Manoel Santana, que há pouco abrira seu primeiro negócio, um barracão de manufatura de produtos de limpeza caseiros. Neste mesmo dia levei Trovão, que foi sacrificado a marteladas; voltei com 5 kg de sabão em barra com aroma de eucalipto, dos quais 1 kg remeti à igreja como forma de vínzimo (fazem muita espuma e são mui cheirosos, já garanto). Enfim, é gratificante saber como Deus tem um plano até para os bichos encapetados.
Hélio Santana


