sábado, 31 de dezembro de 2011

Hector, o Convertido




Quando saí do Amazonas para o interior de São Paulo, a modo de acompanhar meu pai, então um lenhador, para uma nova vida na cidade grande, não imaginava que a vida lá seria tão diferente. Minha vida inteira passei na fazenda do Pr. Gerson Malafaia, um madeireiro evangélico grandemente respeitado na região, pai do então minino Clodoaldinho, que um dia seria também pastor e adevogado de grande prestígio, e achei que a vida toda fosse assim, cercada de gente decente. Estudava numa escolinha de lata d'onde aprendia o be-a-bá da Bíblia, cercado de meninos evangélicos, a tutela de Pr. Esteves Escobar.

Nada nos faltava, pois Deus provia de tudo, porém meu pai que era meio burro encucou que devia sair e ver a cidade grande. O coitado, que não era instruído, cismava que Pr. Gerson nos enganava, na hora da conta das toras, e insistia em nos pagar a menos. Também se aborrecia do preço dos mercados, insinuando que o benevolente Pr. Gerson tentava nos endividar, vendendo tudo a preço alto. Por razão disso, se tocou para a cidade grande. Saímos fugidos no meio da noite e por uma semana rodamos num pau d'arara, numa viagem d'onde três sucumbiram à diarréia e dois à malária, incluindo meu irmão menor, o Pedrinho.

Na cidade grande, fomos morar numa favela, mas Deus interviu por nós, mesmo não merecendo, e deu a meu pai um emprego de pintor de caiação. E também empregou minha irmã, a Juçara, então com 14 anos, para ser doméstica na casa de uma madama, assim como outros dos meus irmãos, que faziam bico como servente e trazedor de marmita. Eu, dos nove filhos o único alfabetizado, meu pai mandou matricular numa escola pública.

No entanto, assim como no resto da cidade, descobri que as escolas paulistas eram muito diferentes. Eu, acostumado a estudar numa moderna sala de zinco, fui para um prédio velho pra burro, que devia ter mais de duzentos anos. Me perguntava se estavam tão pobres os paulistas que não tinham dinheiro para derrubar esses prédios velhos para erguer novos.

Logo no primeiro dia de aula, me espantei não precisar orar antes de entrar no colégio, como me acostumara, nem exaltar preces à Deus pela bondade e graça de Pr. Gerson, nosso provedor terreno. Mais estranho ainda foi ver a falta do arreio de couro de cabrita de metro que Pr. Esteves Escobar sempre pendurava ao lado do quadro negro, para nos educar quando errávamos a lição. Quando me perdia n'alguma conta, tudo que fazia a professora era marcar uma nota vermelha. Que atraso dos paulistas, que nem pagar um arreio podiam; sentia mais e mais saudade do Norte.

Passadas algumas semanas a professora estava dando aula de história, sobre colonização do Brasil. Eu nem entendia nada. O país só tinha índio? Onde estavam os cristãos? Sempre achei que Belém do Pará, a cidade em que Jesus nasceu, tivesse cristãos dantes. Maior foi a minha dor ao descobrir que o protestantismo era recente - os primeiros cristãos do Brasil eram tão pagãos quanto os índios que aqui estavam. Não a toa o Brasil é tão atrasado, por ser país de católico.

"Mas não sabias disso, Hector?", perguntou a professora, "achei que você fosse índio."

Ela então me contou dos hábitos, das religiões antigas dos índios. Que costumavam adorar a um deus-sol, deus-tucano, deus-folha. Contou que se não fossem os católicos, até hoje falaríamos língua nativa, e rezaríamos pros deuses índios.

Fiquei com muitas dúvidas, mas não sabia a quem recorrer. Então um dia, na hora da janta, indaguei meu pai:

"Pai, porque a gente reza pra Jesus, se a gente é índio?"

Quando lhe disse estas palavras, ele estremeceu, e então afrouxou os dedos, paralisado. Depois de se recuperar, levantou-se devagarinho, mandou meus irmãos pra fora, e me deu a pior surra da minha vida. Cada "reada" era um Salmo que ele recitava, quase gritando, e foi assim até Provérbios. Depois de sova tão bruta, guardou a cinta e o cabresto, e me disse que se alguém perguntasse porque havia apanhado tanto, e tinha tantos roxos, devia dizer que fora atropelado, ou coisa assim, ou daria em dobro.

Depois de tamanho couro, Satanás morreu em mim, e eu alcancei a redenção. Joguei uma pedra (paralelepípedo) na janela da escola e nunca mais voltei pra'quele lugar. Comecei a matar escola para ir na igreja. Deus foi prosperando em mim. Só mais tarde soube que a pedra veio a atingir uma estudante que acabou cega dum olho. Mas lembrei-me daquele versículo: nada acontece sem a vontade de Deus. Decerto foi merecido.
Depois d'uns dias, meu pai viu que nada daria certo naquela cidade; vendemos tudo em São Paulo e voltamos pro Norte. Ele ficou muito orgulhoso ao saber minha dedicação a Deus. Seguindo seu exemplo, nunca mais fui à escola.

Cresci, me casei e hoje sou pai de seis filhos. Já fui atingido por tifo, câncer e até um raio fulminante, mas superei tudo na minha Fé cega em Jesus. Eu era índio, mas me curei. Hoje sou obreiro orgulhoso da Igreja do Primeiro Impacto.

Hector

6 comentários:

Anônimo disse...

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Anônimo disse...

Cara, muito bom o seu blog, rolo de dar risada com ele...
Só corrije aí: é impossível a mãe do cara ter 14 anos e ele já frequentar a escola.
PS: Não precisa publicar esse comentário.

Anônimo disse...

Deixa pra lá, não era mãe, era irmã.
É o que dá comentar depois de beber...

Thiagojr disse...

Todos os cristãos e igrejas deviam ser queimadas, assim o mundo ficaria muito melhor para todos

Rogerinho disse...

Glórias. Mui ungido esse testemunho

Anônimo disse...

É coisa minha ou esse zé ai da foto não é o tatu da ilha da fantasia crescido???

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