
Depois da escola, geral se reunia na barraquinha de doce da tia Rosa pra tomar uma Sukita de Uva e comer um Fofura sabor Churrasco.
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Eu virava o copo de plástico na tentativa de afogar minhas frustrações com a nota de ciências. A professora Bete ia me reprovar de novo! Minha mãe já tinha me avisado se eu reprovasse a oitava série pela quarta vez , que ela ia me mandar para Macaé pra morar com meu tio Genival( que é Pastor) e primos. Morar naquele fim de mundo era como se fosse a morte.
Zeca parou do meu lado, veio me falar da pelada que tavam organizando em um campo de grama sintética ali perto. Eu me recusei mas , insistente como era, ele não me deu sossego.
-Poh , Tricolor, vai amolescer? O time da rua de baixo, chei de mulambos e vascaindos, tão com maior marra! - falava o José Carlos Monteiro, vulgo Zeca, enrolão bom de lábia( era filho de Vereador e puxou ao pai), vizinho de longa data e amigo de infância.
- Poh , cara. Tô ferrado na mão da Bete de ciências. Vou reprovar se não tirar 10 na prova de recuperação.
- Fica assim não, amigo. Eu tenho um surpresinha para você.
Ele sacou uma folha de ofício Chamequinho toda amassada do bolso.
- Olha só o que eu tenho aqui: a prova de recuperação !

Tirei o papel da mão dele , estiquei-o na tentativa de torna-lo mais legível possível e conferi que se tratava mesmo do exame final.
- Como conseguiu?
-Não importa. Só estuda as questões e se garante na prova.
Guardei a folha dentro do meu caderno do homem-aranha de 20 matérias da Foroni. Relaxei um pouco daquela tensão toda e os ultimos 4 dias que faltavam para a prova voaram. Só fui estudar no ultimo dia que restava. Peguei as questões e tentei resolve-las mas , como dá pra imaginar, nao consegui fazer nenhuma. Ciências nunca foi meu forte.
No desespero que bateu , liguei para a Ritinha, minha namorada, e pedi o endereço de uma Cartomante que ela tinha consultado.
O 'consultório' da tal cartomante era em uma casa antiga , a sexta do número 66, com um portão de ferro velho e enferrujado que dava para um corredor úmido com paredes cheias de limo. Bati em uma porta de madeira antiga e pintada de branco. Uma velha italiana usando uma camisola púrpura, furada na altura do mamilo esquerdo, veio atender.
-Entre, ragazzo
O lugar, com uma iluminação vermelha de puteiro de porta de estrada, era um tanto quanto macabro. Cartas de Tarô, dados viciados de RPG, posteres de Alister Crowley e da Xuxa, mesas de mágico em um canto, cartolas, Livros de Alan Kardec empilhados em um criado-mudo, esqueletos humanos, imagens de santos católicos, um disco do Fofão, uma peruca que foi de Chico Xavier, jarros com fetos humanos e outras bizarrices satânicas decoravam a pequena sala.

Ela me indicou que sentasse em uma cadeira de fronte a uma mesa com uma bola de cristal em cima. Eu estava nervoso e tremia como vara verde.
- Vejo que está mui preocupado con una cosa... - ela respondeu após fitar por 30 segundos a bola de cristal.
-Sim. Estou quase reprovado em ciências
-Hum. Vejo qui queres mia ajuda para conseguire algo con esta cosa ...
Não é que ela acertava tudo! Tirei a prova do bolso e mostrei.
-Quero que me ajude a resolver.
Ela avaliou o conteúdo.
- Para isso eu peço o triplo do que cobro, pois tenho qui evocar ajuda del espíritos dellos cientistas mortos. São almas que vagam no limbo eterno.
- Tudo bem - Puxei uma nota de 100 reais que recebi do meu tio Genival de presente de aniversário.
A velha mulher sorriu e foi marcando as questões com uma bic azul. Me entregou e disse:
- Faça bom proveito, ragazzo.
- A senhora evocou um espírito dos bons, né? - perguntei temeroso
- Fique tranquilo. Contatei um dos maiores cientistas, foi il espectro dello Charles Darwin quem respondeu sua prova. Ele é um antigo amico espiritualle mio! HAHAHAHAHAHAHAH!
E começou a gargalhar freneticamente em uma risada terrível, a ponto de engasgar com a própria dentadura .
Deixei a nota de 100 e saí rápido daquele lugar estranho.
Deixei a nota de 100 e saí rápido daquele lugar estranho.
Memorizei todas as questões em uma hora(fiz até uma musiquinha para não esquecer). O resultado não foi outro: tirei 10 no exame. Todos ficaram muito felizes! Minha professora me deu os parabéns ; minha mãe comprou , no boleto bancário das Casas Bahia, uma televisão CCE de 14' novinha pro meu quarto.
Meu pai me levou para o bordel (Clube das Flores); disse que agora, no secundário, eu era homem e devia aprender certas coisas.Voltamos para casa lá pelas 2:32 da madrugada . Estavamos os dois meio embriagados , depois de bebericarmos bastante Cuba Libre e passarmos a mão em dançarinas sifilíticas. Dormi feliz.
Um sonho estranho me acometeu. Estava sentado na carteira do colégio e a Bete me olhava com uma cara de braba. Do teto cairam a cartomante e um senhor barbudão. Era Charles Darwin que começava a se metamorfosear para sua forma verdadeira, um ser com cabeça de homem e corpo de macaco.
Eles começaram a falar no dialeto dos macumbeiros e a dançar em círculos como os índios.Darwin fumava um charutão de maconha, Bete comia nacos da carne do próprio antebraço e a cartomante gritava:
-Agora é um dos nossos , ragazzo! Tua alma vai ser condenada ao Limbo , la prima zona dello inferno!
Darwin gritou com voz gutural:
- Agora teu futuro me pertence, pequeno mentiroso! Você sabe que eu adoro mentira? A minha teoria evolutiva foi a maior que eu ja contei e os trouxas cairam!
Eles iniciaram uma risada estérica e eu acordei , suando frio.Decidi contar toda a verdade sobre a cola. Envergonhada, minha mãe me mandou para Macaé.
Lá chegando, meu tio me converteu a fé protestante. Iniciei uma nova vida, depois que me banhei na piscina sagrad Tony de mil litros e foram removidos os encostos de mim. Hoje sou um fiel exemplar, o escritor Oficial da nossa Congregação e dou o testemunho de que ciências, feitiçaria , mentiras e evolucionismo são tudo farinha do mesmo saco; são coisas que nos afastam de Deus e guiam ao Inferno!
Glórias ao Altíssimo Pai Senhor da Justiça!
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