
Meu pai, motorista do pastor Josiel Ramos aqui da Igreja de Vitória( ES), sempre foi um homem rígido e correto. Ele zelava pelo bem estar de nosssa família e impedia que saíssemos do caminho. Me lembro que eu ficava fulo da vida por ele não me deixar ver os desenhos Pokemon e Dragombal, que todos na escola estavam assistindo e comentando. Papai dizia que aquelas "coisas de japones"
não eram boas a um cristão porque: "Ora já se viu! Japonês tem aquele olho puxado,apertadinho, porque vive na escuridão de suas vidas sem a luz do protestantismo. São todos um povo atrasado. Adoradores de ídolos!"
Não éramos ricos mas , com seu salário , papai pode pagar a um colégio particular aqui da capital- estudei no Centro Educacional Leonardo da Vinci. O lugar era infestado de católicos e espíritas, com seus casacos da Adidas ou da Oakley, bonés da Calvin Klein e tênis da Reef( tênis grandão que os maconheiros usam e escondem drogas dentro). Em sua maioria , eram pessoas pouco amistosas mas alguns se faziam de amigos(falsos-amigos). Meu pai já tinha me avisado de como essa corja age e mandou manter distância desses pecadores. Mesmo assim , acabei me aproximando de uma dupla que sofria na mão do grupo dos playboys descolados: o Carlos São-Nunca( um gordinho católico que era a cara daquele Santo que aparecia no comercial da Televisão) e o Gabriel ceguinho- que tinha uma doença degenerativa nas vistas (punição divina por ele seguir as mentiras do espiritismo).
Todo dia, eu ia para a escola vestido de forma cristã. Usava uma calça de moletom cinza, uma camisa xadrex em tom neutro( por baixo da camisa do uniforme), colocava um broche da pomba do Espírito Santo na lapela e meus tênis Olympikus, modelo escolar, todo branco. Minha mãe comprova minhas roupas na Mesbla da Avenida Princesa Isabel, no Centro.

Os caras do colégio gostavam de caçoar do meu modo de vestir( aqueles imundos!) e pegavam no meu pé direto. O mais chato deles era um tal de Nicolau Cachopa, mais conhecido por Alface( usava folhas de alface como seda pra baseado). Foi ele que me deu o apelido de "Lambda-Lambda-Lambda"( daquele filme que passava muito na sessão da tarde: a Vingança dos Nerds). Wenceslau Cachopa era 3 anos mais velho que eu, muito mais forte- ele frequentava a academia (e tomava bomba)- ainda por cima , tinha melhores notas(comprava os professores). Se vestia como aqueles mauricinhos da fraternidade Alpha-Beta, usando camisa Polo Ralph Lauren, Óculos Ray Ban modelo aviador( estilo do filme Top Gun), brinquinho em cristais esvarovisk na orelha esquerda, sapatênis Gucci de 500 euros e um relógio Breguet que ganhou de seu pai quando fez 18 anos.

Todos os dias, no recreio, ele vinha com aquele grupo de puxa-sacos "zoar os nerds". Nerd?! Vê se pode isso?! Ora, eu não sou nenhum imbecil punheteiro, com problemas sociais, que fica vivendo de fantasias e namoradas imaginárias. Eu sou um crente! Um Guerreiro de Jeová! Sigo as ordens dos pastores que são os representantes de Deus na Terra.
Em uma segunda-feira, mamãe preparou meu lanche favorito: um sanduba com a carne assada que sobrou do domingo, alface americana , tomate, catchupe e maionese caseiros - na nossa casa não entrava essas marcas como Hellman's que significa 'homem do inferno'; nem Sadia que tem o 'S' que é igual um 6, símbolo do AntiCristo; muito menos aquela tal de 'Perdigão' que vende carne de animais que não existem ( você já viu algum 'Chester' ciscando por ai?) e o nome 'Perdigão' significa 'Perdição' em aramaico. Ela colocava tudo em um pão francês dormido, comprado no dia anterior na padaria do Zé-Portuga e benzido pelos pastores. Completavam minha merenda: um Toddinho e um Geladinho Frutal ( que até já tinha derretido todo) sabor abacaxi.
Sentado no pátio, junto com o São-Nunca e o Ceguinho, eu desembrulhava minha merenda( que estava em sacola de papel) e o cheiro que saia do sanduiche já me dava água na boca. Quando finalmente ia colocar minha mão no precioso lanche, alguém veio rápido e o tomou de mim. Era o grupinho-do-mal comandado pelo Alface que , neste dia , estava com sua jaqueta de couro da Harley Davidson sobre o uniforme. Ele pegou meu lanche inteiro e não pude impedi-lo(permaneci sentado). Vasculhou a sacola , achou e arremessou o toddinho longe e expremeu o geladinho sabor abacaxi na minha cabeça, sujando meu cabelo cortado em forma de cuia. Foi então que ele achou meu Sanduiche especial. Deu uma bela cheirada, elogiu e mordeu, tirando uma lasca enorme. O sangue me subiu a cabeça e eu estava pronto para reagir e usar meus movimentos de Krav Magá(luta israelita de Deus), que aprendi assitindo video-aulas no youtube. Não tinha computador em casa mas dava desculpas a mamãe e ia para a LanHouse do Magaiver( 1 Real a Hora), filho da Rita tanajura. Usei a internet para aprender uma arte de Deus, por isso imaginava não ter nenhum mal em faze-lo.

São Nunca chegou perto de mim e falou baixo:
- Fica na tua , cara. Vai pra cima dele não! Ele é filho de maçom, cara. O pai dele conhece o prefeito e o diretor da escola. Vão te expulsar do colégio e despejar sua família!
Depois que ele falou isso , lembrei do discurso do Pastor Josiel, daquela parábola que fala sobre saber a hora certa da colheita. O maçom ia colher o fruto da semente que plantou. A se ia! Mas não ali, nem ia saber que eu seria o instrumento dos anjos para ceiva-lo , e jogar no fogo aquele joio maldito! Deixei o playboy em paz e ele foi logo embora , depois de comer o sanduiche , limpar a mão suja de maionese na minha camisa e me dar um soco no ombro.Na hora da saída o vi entrando em um Mercedez Bens Classe E Sedan de seu pai.
Fui para casa. Decidi não jantar e usei o tempo para bolar todo o plano. Preparei um boneco na minha cama e um gravador, para se passar por mim caso minha mãe viesse me observar dormindo( esquema igual ao que o Ferris fez no filme 'Vivendo a Vida Adoidado'). Separei meu taco de beisebol do Pastor Udinésio e coloquei na mochila. Bebi meio litro de água benzida do Rio Jordão e passei o óleo dos destemidos(R) na cara, para me dar coragem. Pulei a janela do meu quartoe segui meu rumo com minha Caloi Ceci juvenil, Aro 24 , com cestinha na frente( que já tinha sido da minha irmã mais velha, a Carla).

Invadi a escola de madrugada- vi que eram 3:02 em meu Relógio-calculadora da Casio(que meu pai comprou no bazar da Igreja). Achei a ficha do maçom e vi escrito "endereço da Casa" e "endereço da Loja". Pensei que , para o que eu devia fazer , seria melhor eu acabar com o ganha-pão do pai dele, assim ele ia aprender a ser mais humilde( o reino dos céus pertence aos pobres de espirito). Anotei o endereço da loja e segui para o local com a bike.
Poh , cheguei lá e aquilo não tinha cara de loja, não tinha nenhum anuncio na entrada. Mais parecia um teatro pequeno ou uma casa antiga. Como sei que maçons são excêntricos, nem dei muita bola a isso. Entrei pela porta dos fundos , usando um cartão Mastercard antigo( o melhor para arrombar portas).
Procurei por lá dentro e não encontrei nenhum produto. Estava tudo escuro e só o que eu notava era uma casa vazia. Ouvi sons vindos de uma porta. Era uma porta bem grossa que estava entre aberta e uma luz fraca vinha de dentro. Abri a porta devagar e vi que dava passagem para uma escada que ia pro subsolo. Segui.
As escadas desciam em espiral e as paredes eram feitas de pedra branca talhada( como naqueles filmes medievais sobre os Cavaleiros templários que foram os primeiros maçons). A iluminação era a base de velas pretas e vermelhas( quanta avareza!Nem dinheiro para pagar a luz eles dão!), que são cores do umbanda. No final da escada tinha um salão enorme, que mais parecia uma capela católica, com imagens de demônios entalhadas, bancos em madeira e cortinas roxas.
Sons de pessoas falando vinham do fundo daquela sala. Sorrateiro , me escondi atrás de uma pilastra e fiquei assitindo ao que se passava:
Tinha um grupo de pessoas fantasiadas de personagens. No meio de um círculo formado pelos fantasiados estava um encapuzado de terno e gravata; do lado dele estava um vestido de Papai Noel e , do outro lado, um estava de mago do filme Senhor dos aneis( Gandalf). Os demais estavam de armadinejadi(terrorista iraniano), de papa João-Paulo-Segundo(o primeiro AntiCristo) ou de Obama Bin-laden( muçulmano presidente dos Estados Unidos). Eles encenavam aquele jogo de RPG de nome Dungeons e Dragons, onde os partcipantes se fazem de demônios mitológico e caem na mão em batalhas sangrentas ( só ver nos jornais que sempre morre um jogador de RPG por ai).

Não entendia muito bem o que eles falavam. Teve uma ora que o cara vestido de Papa sacou um porrete grandão e acertou a cabeça do encapuzado, fazendo ele cair para trás. Os outros maçons pegaram o corpo em um pano e vieram em minha direção. Eles tinham matado ao homem e iam se livrar do corpo!
Eu não podia deixar!
Corri de volta a escada e peguei a primeira vela, voltei e a atirei na cortina roxa de camurça que se incendiou instantâneamente. O fogo pegou tão rápido que mais parecia que Deus estava operando ali e punindo aqueles assassinos! Isso desnorteou os maçons que não souberam como reagir. Subi as escadas o mais rápido que pude e bloqueei a porta apoiando na maçaneta o bastão do pastor Udinésio(autografado pelo próprio) que é feito em aluminio super resistente. Pude ouvir os maçons acertando a porta , tentando abri-la mas ,com certeza, o poder Divino do bastão não deixaria o mal escapar daquele lugar infernal.
Liguei para o disque-denuncia (181) e contei sobre o assassinato. Agora era só ler a notícia, no jornal do dia seguinte, sobre a prisão de um grupo de maçons assassinos.
Cheguei em casa , guardei silenciosamente a Caloi e fui direto para a cama. Pelo visto , ninguem em casa suspeitava de nada. 2 dias depois saiu uma noticia no caderno principal do jornal 'A Gazeta' que me deixou preocupado: " Incendio em Loja Maçonica mata 9 ". Me confessei logo naquele dia com o pastor Josiel e ele perguntou se algo poderia provar mesmo que aquilo era obra minha. Eu disse que não . Então , ele afirmou que aquilo só podia ser obra da Justiça do Senhor. Por via das dúvidas , paguei os custos da imersão na piscina sagrada e me banhei para remover as impurezas que posso ter absorvido no reduto dos maquiavélicos.
Meu pai, quando viu a notícia, vibrou muito, dizendo ser obra de Deus, que os maçons são seguidores do demônio. Depois que ele falou isso, fiquei até orgulhoso em ter sido instrumento da Justiça Divina.
O pai do Nicolau Cachopa era o que estava fantasiado de Papai Noel e acabou sendo fulminado por Deus naquele dia. Nicolau perdeu tudo o que tinha depois da morte do pai, perdeu até a mãe que se suicidou pois não suportaria ser pobre. Hoje em dia , eu o vejo sempre mendingando em frente a escola e as vezes dou uns 25 centavos como caridade( e uma ou outra moca em sua cabeça).
A unica coisa que me arrependo é ter ficado sem meu Taco de beisebol de alumínio autografado pelo Pastor Udinésio. Tomara a Deus que eu arrume logo outro!
A paz
Assinado Fulvius Castro Alves