Estou entrando na adolescência, por isso tenho a necessidade de formular minha própria identidade, me individualizando, diferenciando-me de meus pais. Minha família é evangélica, gente direita que teme a Deus.
Foi natural, portanto, eu me rebelar quando fiz 13 anos, e seguir o caminho errado, assim como satanás que foi Lúcifer. Apesar de ser um dos melhores alunos da 5ª série, o melhor vendedor de Canetas Consagradas da igreja em todo o bairro, e o melhor capinador na fazenda do pastor Aricleine (prêmio Enxada de Ouro), nada disso bastava. Eu queria ser diferente, queria ser outra pessoa. São as vicissitudes da vida. (Ezequiel 28:12 Tu eras o selo da perfeição, cheio de sabedoria e perfeito em formosura.).
Chegando no pátio da escola, vi uma “tribo”. Era um grupinho bem descolado, todos usavam óculos escuros, alguns usavam o cabelo rastafari e vestiam cores da Jamaica. Achei aquilo muito bacana, parecia que eles estavam em paz. Ao me aproximar, já fui bem recebido.
-E aí, meu maninho, você curte um regue? Quer andar com a gente? O negócio aqui é fogo na Babilônia.
Gostei deles logo de cara, lembrei que fogo na Babilônia é uma profecia do apocalipse. Talvez eu pudesse ser descolado e continuar indo na igreja.
-Sim, vocês parecem bem descolados.
-Beleza, maninho. Toca aqui, então. Mas antes você tem que fazer um favor pra nós, ta ligado? Você tem que ir no Morro do Chapadão, em Costa Barros, no subúrbio do Rio, e pegar um pacote pra nós com o Tiriça..
Fui na mesma tarde. Depois de pegar o pacote que tinha uns 5 Kg, fui pra praça com a galera. Eu não era tão ingênuo, aprendi muita malandragem vendo o programa do Datena, portanto sabia que era maconha no pacote. Fumei muito daquela erva maligna. Meu caderno de português virou fumaça.
Depois de passar a tarde toda com eles, fui pra casa chapado. Meus pais estavam orando por mim, e deram graças a Deus quando me viram voltar. Logo que sentiram o cheiro de maconha, já me bateram. Meu pai me segurou por trás e minha mãe me deu um soco forte no estômago.
-Seu safado. Você vai virar um petista se continuar assim. Vou botar juízo nessa sua cabecinha.
Eu não estava sentindo nada, anestesiado pela droga do diabo. Apenas ria. Então desmaiei.
Acordei em cima de nuvens brancas, raios de sol me cegavam. Jesus Cristo me deu um tapa na cara e me pegou pela camisa. Ele gritava:
-Você é moleque! Você não é obreiro! Pede pra sair!
Despertei desse sonho e vi quando meu pai me deu um chute no pescoço enquanto eu estava no chão. Desmaiei de novo.
Voltei para o céu. As nuvens se abriram aos meus pés e caí por vários km. Cheguei ao inferno. Lá satanás espetava com o tridente o Bob Marley, que estava no lago de fogo e enxofre.
-Misericórdia, satã, eu não agüento mais esse sofrimento. Gilberto, você não merece estar aqui. Olhe bem para mim: sou um derrotado. Um fracassado. A maconha estragou minha vida, e hoje estou condenado a ficar aqui para todo o sempre, sendo atormentado pela eternidade. Você é um rapaz bom, estou certo de que seus pais te amam. E o mais importante: Jesus te ama.
Lágrimas caíam pelo rosto do Bob Marley. Eu também comecei a chorar.
Acordei cheio de hematomas, o corpo todo dolorido. Meus pais me amavam, por isso me bateram tanto, mesmo eu desmaiado. Pedi perdão por tudo e os abracei. Para a glória do Senhor Jesus fui perdoado e lavado no sangue do cordeiro.
Assim que me recuperar dos traumas (quebrei a clavícula e sofri ruptura do ligamento subescapular) vou iniciar aulas na escola evangélica . Não vejo a hora de aprender sobre os humanóides (filhos do diabo) e as profecias da Igreja do Primeiro Impacto.
Glória a Deus.
Gilberto Morais